Domingo, 27 de Maio de 2012

Quando As Cabeças Sentem Frio

O bom dia de cara pálida e obesa
De sensações obscuras que roem
E moem cada canto do meu crânio
Com uma dor invisível e muda.
Proveniente de um silêncio tímido
Que se manterá eternamente encoberto.

Onde tudo se arrasta sobre a visão
Desfazendo as feridas nas peles
Frias, secas e desincrustadas.
Sepultando partículas de silêncio:
Sangue impuro e invisível,
Queratina furtada pelos ventos.

São disparados os primeiros grãos
De medo ditador e inquisidor,
Ordenando a subtis milícias
Para florescer a hostilidade mental,
Arremessando ao corpo as nódoas necessárias
A uma perfeita criatura disfuncional.

Alimenta-se com uma fome incansável
Como se esta corresse organismo
Pingando gotas de suor doente,
E assim se tornava o corpo
Um objecto preso, condenado
À castradora liberdade da fraqueza.

O ditador é eficaz e de mãos ásperas,
Golpeia o intelecto do animal
Com a ténue disfunção nervosa.
Num milissegundo eclode a nova guerra
Onde pensamentos se angustiam e criam
Novos batalhões surgidos da fetidez da tirania.

O importante é resistir às hostilidades,
À violência das vozes e gritos dilacerantes
Que em tempo incerto renascem.
Os líquidos que caiem ao deleite
Do chão frio e negro que fede a podridão
Marcam o confronto sem perda.

De olhos pesados, cansados, mastigados
Liberta-se o distúrbio, vulto no olhar mudo.
A reacção surge e resiste
Amordaçando os severos pensamentos
E reclamando nervos sem tormentos.

.G

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Como Não Sangrar

Descobriste lágrimas escorrer a cara suja,
De pouca puja, perante depressões e irregularidades
Cravadas na palidez de uma pele
Que repele emoções que me deixam vazio

Foram abertas todas as feridas,
Denunciando as jazidas fragilidades.
Tentei conter tudo e agora não posso sorrir
Nem sentir a leveza de um coração imóvel

Estou inexplicavelmente vazio de sensações
E de efémeras paixões com bocas mal desenhadas
E bochechas amordaçadas na caruma molhada
Pela rajada de cuspo de uma garganta incolor.

Conheceste-me, literalmente.
Não estava doente, mas sim vazio
De corpo frio e insensível 
À ilegível dor caída a teus pés.

Acabou tudo nos dentes da monotonia
E na azia de um toque mudo
Entre um dedo são e um dedo defunto
Que brotou num sumpto de um sangue sem cor.

.G

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Ócio

O ócio que o teu corpo transpira
Revela um estado de espera eterna
Pelo herói amputado.
De mãos sujas na caverna
Onde a força da razão inspira.

Dizes não respirar políticas racionais
Mas o teu pensamento é engolido,
Enquanto clamas pela tua legitimidade,
Inacessível face ao torpe sorriso embutido
Na encardida cara sem sinais.

Na mais profunda das inércias do teu ser
Sustenta-se a auto-inocência prematura
A que chamas: Liberdade.
Invoca-la desconhecendo a sua frágil sutura,
Que por ilustre imbecilidade, deixas carecer.

Absorves loucamente doses de conformismo
De costas curvadas e vértebras rachadas.
À noite, lamentas toda a dor
Com lágrimas de suor algemadas
Aos olhos cegos de elitismo.

Observas a tua realidade sem ver,
Insistes em julgar sem consciência
Social, essencialmente.
Os que batalham a opressão, pela resistência
Por seus cérebros conscientes, tudo perceber.

Não és pessoa, socialmente, não existes
És dono de um coração suprimido,
Auto-censurado, auto-limitado.
Na sociedade de pensamento proibido
Não passas de puro ócio, alimento das elites.

.G

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Nada

Eu soube que não estava bem
E que tudo estava diferente.
Quando, pelo caderno esquecido, eu vi
Corpos e objectos banais deslizando sobre a calçada.
Na minha visão periférica só restavam luzes e sombras:
Nada era concreto, nada tinha corpo, nada vivia.

Foi nesse momento que agarrei a minha dor,
Quando perdi as forças que me mantinham sobre terra,
Sentindo a triste e bela falência dos membros inferiores,
E percebendo a confusa sensação de não perceber nada,
Enquanto o meu olhar tremia, desconhecendo limites.
O meu corpo então caiu, dormente, nos braços de ninguém.

Tu eras apenas alguém de longe que eu não merecia,
E quando as nossas identidades se cruzaram,
Também não te merecia.
Naquele dia não caí no chão, mas sim em vão.
Porque nem um nada mereço nesta pele fria,
Não percebo, não sei, não conheço: nada.

.G

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

Queda

A terra tocou-me nas vísceras
Absorveu todo o sangue escuro.
Aí caí por terra.
Desculpa a partida sem carícias míseras
E morto, não é o estado que procuro.


Tínhamos tudo do que era possível
Os corpos arranhados na seda.
Não era o que pensas
Porque o amor é banal e inacessível
Como a minha garganta azeda.


A maçã que guardámos, entre as cinco,
Fui eu que a trinquei e junto a ti me derreti,
Com todo o afecto.
Antes de rasgar, com a pedra de zinco,
Os meus olhos verdes, em ti.


.G

Domingo, 1 de Janeiro de 2012

O Escravo

Vomita ele o pão amassado
Pelas promessas perdidas
E mortes concedidas,
À luz de um sol mijado.

Respira ele o ar petrificado
Pelas esmolas furtadas
E cabeças enforcadas,
Enquanto se lambe o gado.

Sangra ele o grito aleijado
Pelos olhares sucumbidos
E pescoços torcidos,
Aos pés do parasita disfarçado.

Até içar de novo a bandeira
À voz da unidade
Contra a corrosiva vaidade
Que assassina uma nação inteira.


.G

Domingo, 6 de Novembro de 2011

Em Vão

Não falo porque não preciso
De palavras nem suspiros
Para desenhar o meu pensamento
Nos teus pálidos olhos.

Apenas ouço.
Ouço o teu respirar,
Ouço a tua dor.
Esta é a minha outra visão.

Mas não tens de me olhar.
Se não tens nada para ser.
Também não quero palavras,
Nunca vou saber de que vida são.

Da que fabricas para beber café
Ou da que escondes em ti arruinada
Pela pequenez idiota e melancólica.
Baixa a cabeça e consome-te de vicio.

Neste momento terás de chorar
Mas as lágrimas estarão extintas.
No próximo terás de defecar
Mas o teu corpo estará oco.

.G